Ciência, Espiritualidade e Valores Humanos na Saúde: Rumo a um Cuidado Integral do Corpo, da Mente e do Espírito

Os cuidados de saúde contemporâneos enfrentam um paradoxo. Nunca tivemos tantos recursos tecnológicos, biomarcadores, ferramentas de imagem, terapias-alvo, sistemas de inteligência artificial e protocolos baseados em evidências. Ao mesmo tempo, muitos pacientes continuam a sentir-se fragmentados, reduzidos a um diagnóstico, a um órgão doente ou a um resultado laboratorial. Esse paradoxo convida-nos a recuperar uma questão essencial: o que significa cuidar de uma pessoa como um todo?

A saúde não pode ser entendida apenas como a ausência de doença. O sofrimento humano envolve o corpo, mas também a mente, os relacionamentos, os valores, a história de vida, a esperança, o medo e a busca por sentido. Nesse sentido, a espiritualidade tem se tornado cada vez mais uma dimensão relevante do cuidado integral da pessoa, especialmente em contextos como doenças crônicas, saúde mental, cuidados paliativos, luto, trauma e condições que ameaçam a vida [1–4]. Falar sobre espiritualidade na saúde, no entanto, exige rigor conceitual. Não significa substituir a ciência pela crença, nem transformar a doença em uma explicação moral, religiosa ou mágica. Significa, pelo contrário, reconhecer que os seres humanos adoecem através do corpo, sofrem através da mente e buscam sentido através da totalidade de sua existência.

Uma revisão sistemática publicada na Frontiers in Psychology propôs que a espiritualidade na saúde pode ser compreendida por meio de crenças, práticas e experiências relacionadas à conexão com Deus ou o divino, o sagrado, a comunidade, a natureza, a arte, o self (o eu) e dimensões como significado, propósito, valores, bem-estar, paz interior, crescimento pessoal e suporte [1]. Esse arcabouço é importante porque move a espiritualidade para além de uma visão ritualística estreita e a situa dentro de um campo existencial e relacional. A espiritualidade pode ser expressa por meio da religião, mas não se limita a ela. Pode emergir na oração, no silêncio, no cuidado compassivo, na contemplação da natureza, na música, na arte, no amor, no perdão, na responsabilidade ética ou na profunda questão sobre o que torna a vida significativa.

Na prática clínica, essa dimensão frequentemente se torna visível quando uma pessoa se depara com os limites humanos. Um diagnóstico grave, a depressão, a dor crônica, a hospitalização, a perda ou a proximidade da morte podem romper a ilusão de controle e suscitar questões que não são meramente biomédicas: “Por que eu?”, “O que ainda importa?”, “Quem sou eu depois disso?”, “Como posso viver com essa dor?”, “O que precisa mudar na minha vida?”. Essas perguntas não são periféricas ao cuidado. Em muitos casos, elas influenciam a adesão ao tratamento, o enfrentamento (coping), a esperança, os relacionamentos e a reconstrução da identidade.

Grandes periódicos científicos têm reconhecido cada vez mais essa agenda. Um artigo recente no The New England Journal of Medicine discutiu os médicos, a espiritualidade e o cuidado compassivo ao paciente, argumentando que a atenção às preocupações espirituais pode contribuir para uma medicina mais humana sem abandonar o rigor clínico [2]. Da mesma forma, uma importante revisão no JAMA argumentou que a espiritualidade e a religiosidade devem ser levadas a sério em doenças graves e na saúde pública devido à sua relevância para as decisões dos pacientes, o enfrentamento, a qualidade de vida e as preferências de cuidado [3]. Um editorial no The Lancet Regional Health – Europe também enfatizou a necessidade de integrar as necessidades espirituais aos sistemas de saúde comprometidos com o cuidado centrado na pessoa [4].

No entanto, essa integração deve evitar um risco frequente: o desvio espiritual (spiritual bypassing). O desvio espiritual ocorre quando ideias espirituais são usadas para evitar emoções difíceis, negar conflitos, silenciar traumas ou impedir a elaboração psicológica do sofrimento. Em vez de acolher a dor, cobre-a com frases prontas como “tudo acontece por uma razão”, “você só precisa manter o pensamento positivo”, “isso é falta de fé”, “não chore”, “perdoe rapidamente” ou “não pense nisso”. Embora tais afirmações possam parecer reconfortantes, elas frequentemente geram culpa, isolamento e repressão emocional. A espiritualidade genuína não pede que a pessoa salte por cima da dor. Ela oferece presença para atravessá-la.

Essa distinção é essencial. A espiritualidade madura não nega o corpo, não rejeita a ciência, não se opõe à medicação, não substitui a psicoterapia, não moraliza sintomas nem trata a vulnerabilidade como um fracasso espiritual. Pelo contrário, ajuda a pessoa a habitar a realidade com maior consciência, compaixão e responsabilidade. Não anestesia a alma; expande a capacidade de sustentar a realidade. Nesse sentido, a espiritualidade genuína é menos uma resposta pronta e mais uma forma profunda de presença: presença diante de si mesmo, diante dos outros, diante da natureza, diante do sofrimento e diante do mistério da vida.

Minha pesquisa e perspectiva clínica emergem precisamente dessa interseção entre a psiconeuroimunologia, a saúde mental, a espiritualidade, os valores humanos e a ciência translacional [8,9]. O objetivo é investigar como experiências subjetivas, sentido de vida, sofrimento psicológico, trauma, bem-estar espiritual, inflamação, marcadores imunológicos e redes biológicas se relacionam. Em vez de opor moléculas e sentido, buscamos compreender como corpo, mente e espiritualidade se expressam como sistemas integrados. A depressão, a dor crônica, a fibromialgia, o luto e as experiências espirituais não devem ser reduzidos a um único nível explicativo. Eles envolvem circuitos cerebrais, sistemas imunológicos, história pessoal, apego, cultura, valores e narrativas de sentido.

Esse campo também dialoga com estudos sobre experiências espirituais e estados alterados de consciência. A neurociência tem investigado experiências de quase-morte, autotranscedência e formas de consciência que ocorrem sob condições fisiológicas incomuns [5–7]. Um estudo publicado na Neuron mostrou que lesões corticais seletivas podem modular a autotranscedência humana [5]. Revisões na Trends in Cognitive Sciences discutiram as experiências de quase-morte como oportunidades para explorar a consciência, a função cerebral e a experiência subjetiva em condições extremas [6]. Achados como esses não “provam” interpretações metafísicas, mas também não sustentam um reducionismo simplista. Eles sugerem que as experiências espirituais podem e devem ser estudadas com abertura epistemológica, rigor metodológico e humildade científica.

A saúde integral exige essa humildade. O corpo precisa de diagnóstico, tratamento e tecnologia. A mente precisa de escuta, elaboração emocional e reconstrução de sentido. A espiritualidade precisa de liberdade, profundidade e autenticidade. Quando uma dessas dimensões é excluída, o cuidado empobrece. Quando são integradas, uma medicina mais completa torna-se possível: uma que trata doenças sem esquecer biografias; modula a inflamação sem ignorar o sofrimento; usa evidências sem perder a ternura; reconhece sintomas sem apagar a singularidade da pessoa.

Os valores humanos são o eixo ético dessa integração. Compaixão, responsabilidade, humildade, gratidão, perdão, coragem, solidariedade e amor não são acessórios subjetivos de uma medicina “menos científica”. São fundamentos relacionais do cuidado. A ciência pode medir resultados, testar hipóteses e corrigir ilusões. A espiritualidade pode nos lembrar que o paciente não é meramente um caso, mas uma pessoa que sofre, espera, ama e busca sentido. Os valores humanos impedem que a técnica se torne fria e que a espiritualidade se torne esquiva.

Portanto, a ciência e a espiritualidade não precisam ocupar territórios opostos. Quando devidamente compreendidas, podem agir como forças complementares: a ciência oferece método, crítica e evidência; a espiritualidade oferece sentido, conexão e profundidade; os valores humanos oferecem direção ética. O futuro da saúde integral pode depender precisamente dessa aliança: cuidar do corpo com precisão, da mente com escuta e da espiritualidade com respeito. Não para escapar da dor, mas para transformá-la em um caminho de presença, amadurecimento e cuidado genuinamente humano.

 

Referências

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[9] NAVA, Roseane Galdioli et al. Modulation of neuroimmune cytokine networks by antidepressants: implications in mood regulation. Translational Psychiatry, London, v. 15, art. 314, 2025. DOI: 10.1038/s41398-025-03532-y.

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Science, Spirituality, and Human Values in Health: Toward an Integral Care of Body, Mind, and Spirit

Contemporary health care faces a paradox. We have never had so many technological resources, biomarkers, imaging tools, targeted therapies, artificial intelligence systems, and evidence-based protocols. At the same time, many patients continue to feel fragmented, reduced to a diagnosis, a diseased organ, or a laboratory result. This paradox invites us to recover an essential question: what does it mean to care for a whole person?

Health cannot be understood only as the absence of disease. Human suffering involves the body, but also the mind, relationships, values, life history, hope, fear, and the search for meaning. In this sense, spirituality has increasingly become a relevant dimension of whole-person care, especially in contexts such as chronic illness, mental health, palliative care, grief, trauma, and life-threatening conditions [1–4]. To speak about spirituality in health, however, requires conceptual rigor. It does not mean replacing science with belief, nor transforming illness into a moral, religious, or magical explanation. Rather, it means recognizing that human beings become ill through the body, suffer through the mind, and seek meaning through the totality of their existence.

A systematic review published in Frontiers in Psychology proposed that spirituality in health can be understood through beliefs, practices, and experiences related to connection with God or the divine, the sacred, community, nature, art, the self, and dimensions such as meaning, purpose, values, well-being, inner peace, personal growth, and support [1]. This framework is important because it moves spirituality beyond a narrow ritualistic view and situates it within an existential and relational field. Spirituality may be expressed through religion, but it is not limited to it. It may emerge in prayer, silence, compassionate care, contemplation of nature, music, art, love, forgiveness, ethical responsibility, or the profound question of what makes life meaningful.

In clinical practice, this dimension often becomes visible when a person encounters human limits. A serious diagnosis, depression, chronic pain, hospitalization, loss, or proximity to death may disrupt the illusion of control and raise questions that are not merely biomedical: “Why me?”, “What still matters?”, “Who am I after this?”, “How can I live with this pain?”, “What needs to change in my life?” These questions are not peripheral to care. In many cases, they influence treatment adherence, coping, hope, relationships, and the reconstruction of identity.

Major scientific journals have increasingly recognized this agenda. A recent article in The New England Journal of Medicine discussed physicians, spirituality, and compassionate patient care, arguing that attention to spiritual concerns can contribute to a more humane medicine without abandoning clinical rigor [2]. Similarly, a major review in JAMAargued that spirituality and religiosity should be taken seriously in serious illness and public health because of their relevance to patients’ decisions, coping, quality of life, and care preferences [3]. An editorial in The Lancet Regional Health – Europe also emphasized the need to integrate spiritual needs into health care systems committed to person-centered care [4].

However, this integration must avoid a frequent risk: spiritual bypassing. Spiritual bypassing occurs when spiritual ideas are used to avoid difficult emotions, deny conflicts, silence trauma, or prevent the psychological elaboration of suffering. Instead of welcoming pain, it covers it with ready-made phrases such as “everything happens for a reason,” “you just need to stay positive,” “this is a lack of faith,” “do not cry,” “forgive quickly,” or “do not think about it.” Although such statements may appear comforting, they often generate guilt, isolation, and emotional repression. Genuine spirituality does not ask a person to jump over pain. It offers presence to go through it.

This distinction is essential. Mature spirituality does not deny the body, reject science, oppose medication, replace psychotherapy, moralize symptoms, or treat vulnerability as spiritual failure. On the contrary, it helps the person inhabit reality with greater awareness, compassion, and responsibility. It does not anesthetize the soul; it expands the capacity to sustain reality. In this sense, genuine spirituality is less a ready-made answer and more a deep form of presence: presence before oneself, before others, before nature, before suffering, and before the mystery of life.

My research and clinical perspective emerge precisely from this intersection between psychoneuroimmunology, mental health, spirituality, human values, and translational science [8,9]. The aim is to investigate how subjective experiences, meaning in life, psychological suffering, trauma, spiritual well-being, inflammation, immune markers, and biological networks are related. Rather than opposing molecules and meaning, we seek to understand how body, mind, and spirituality are expressed as integrated systems. Depression, chronic pain, fibromyalgia, grief, and spiritual experiences should not be reduced to a single explanatory level. They involve brain circuits, immune systems, personal history, attachment, culture, values, and narratives of meaning.

This field also dialogues with studies on spiritual experiences and altered states of consciousness. Neuroscience has investigated near-death experiences, self-transcendence, and forms of consciousness that occur under unusual physiological conditions [5–7]. A study published in Neuron showed that selective cortical lesions can modulate human self-transcendence [5]. Reviews in Trends in Cognitive Sciences have discussed near-death experiences as opportunities to explore consciousness, brain function, and subjective experience in extreme conditions [6]. These findings do not “prove” metaphysical interpretations, but they also do not support simplistic reductionism. They suggest that spiritual experiences can and should be studied with epistemological openness, methodological rigor, and scientific humility.

Integral health requires this humility. The body needs diagnosis, treatment, and technology. The mind needs listening, emotional elaboration, and reconstruction of meaning. Spirituality needs freedom, depth, and authenticity. When one of these dimensions is excluded, care becomes impoverished. When they are integrated, a more complete medicine becomes possible: one that treats diseases without forgetting biographies; modulates inflammation without ignoring suffering; uses evidence without losing tenderness; recognizes symptoms without erasing the uniqueness of the person.

Human values are the ethical axis of this integration. Compassion, responsibility, humility, gratitude, forgiveness, courage, solidarity, and love are not subjective accessories of a “less scientific” medicine. They are relational foundations of care. Science can measure outcomes, test hypotheses, and correct illusions. Spirituality can remind us that the patient is not merely a case, but a person who suffers, hopes, loves, and searches for meaning. Human values prevent technique from becoming cold and spirituality from becoming avoidance.

Therefore, science and spirituality do not need to occupy opposing territories. When properly understood, they can act as complementary forces: science offers method, criticism, and evidence; spirituality offers meaning, connection, and depth; human values offer ethical direction. The future of integral health may depend precisely on this alliance: caring for the body with precision, the mind with listening, and spirituality with respect. Not to escape pain, but to transform it into a path of presence, maturation, and genuinely human care.

 

References

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